É na fantasia que muitos buscam distração. A afirmativa procede, sem, no entanto, constituir um argumento substancial no esforço para valorizar a realidade em detrimento do surreal. É comum encontrar quem defenda que a literatura ficcional não é digna do mesmo apreço direcionado à que retrata a realidade. Quando se trata da ficção fantástica, então, o descaso torna-se ainda maior. Quem já ouviu alguém dizer "ah, mas esse livro não conta!" ao expor que estava lendo um dos livros da série O senhor dos Anéis ou Harry Potter ou quem já foi rotulado de infantil, exótico e até mesmo lunático pelo simples fato de carregar debaixo do braço um exemplar de As Crônicas de Nárnia em lugar de As pupilas do senhor reitor sabe que o preconceito existe. A pergunta que fica é: Por quê?
É verdade que ler um livro como Olga, de Fernando Morais, é bastante enriquecedor no que diz respeito aos conhecimentos históricos, adquiridos graciosamente em meio à leitura atraente do romance de caráter biográfico. Outra verdade é que, ao nos depararmos com romances não fantásticos, temos a oportunidade de nos identificarmos mais facilmente com as personagens, com os cenários e com as tramas. Entretanto, é fato que a maior parte do que lemos necessita avidamente de imaginação fértil para surtir efeito sobre nossas mentes. Por exemplo, quando você escuta um relato de um acontecimento verídico, é necessário que faça uso da sua imaginação para conseguir retratá-lo de maneira a absorver a informação. Da mesma forma, quando você lê uma história, é preciso utilizar as informações recebidas, mesclando-as com seu potencial de imaginar para conseguir visualizar algo que lhe foi transmitido apenas por meio de palavras. E esse processo independe do gênero literário: pode se tratar de uma peça teatral, romance policial, ficção fantástica, biografia romanceada, romance psicológico, crônica ou ficção científica. Uns exigem mais, outros menos, mas a necessidade de fantasiar está implícita em todas as leituras.
Talvez seja um problema de mentes incapazes de compreender o prazer de ser um leitor pleno, que se regozija ante todo e qualquer tipo de literatura de qualidade. Talvez seja apenas uma rivalidade desnecessariamente forçada entre o real e o surreal. Tanto faz descobrir qual é a força motriz do preconceito que permeia a ficção fantástica. Importante mesmo é saber que não há motivo algum para desqualificar a leitura preciosa dessas obras e todo o encantamento ao redor de universos inteiros criados a partir do maravilhoso e simples ato de imaginar.
*Texto produzido para a disciplina de Textos Publicitários, em 2011.